quinta-feira, 8 de março de 2012
Só dezenove
Vocês costumavam apreciar aquilo, não? Os sorrisos, as besteiras ditas, o senso de humor incomum do tipo ácido e a infantilidade incrivelmente inocente e quase sábia. Aquele pequeno embrião já virou um bebê agora. E ele é frio, indiferente e um mentiroso patológico. Delírios psicóticos não são maldade... É só uma bolha, um muro. Uma tentativa extemamente em vão, uma coisa patética, fétida e triste. São só alguns anos de más sementes plantadas, muito ódio verdadeiro e culpa. Eu gostaria de reaprender a sentir as coisas como antes, eu costumava gostar tanto de amar. Por mais retrógado e frágil que aparentasse, me sentia completo. Sentia algo. Sentia tantas coisas, agora esses olhos são vazios. Eu vivo como um fantasma, é verdade. Eu vejo as pessoas sofrendo o tempo inteiro com seus probleminhas pequenos e não me importo. Não me importaria se morressem todos, ninguém me interessa de verdade. Estou preso em mim mesmo há tempo demais. Eu não converso com ninguém de verdade há tempo demais. Eu minto tão bem, mas tão bem, que todos acreditam no meu showzinho de horrores do tipo sorrisos amarelos,álcool e erva do diabo. Isso tudo é tão falso. Eu sou a pessoa mais falsa que eu conheço. Não que eu tenha feito o mal, eu ainda tenho uma boa índole intacta. Sou de olhos falsos, expressões ensaiadas e entretenimento barato. Ainda sou honesto, sim. Machuco quem eu tiver de machucar com as minhas palavras, honestidade demais também é ruim. É, eu sou a realeza pútrida. Amargo, tudo tem sido tão amargo e por tanto tempo. Nunca pensei que as coisas fossem chegar a este ponto. Tudo parece tão irreal... É como se algo tivesse se perdido no caminho, da mesma forma como sempre existe algo no caminho. Uma faixa imaginária que me impede de seguir. ''Nunca deixe chegar tão longe'', sempre disse a mim mesmo. Mas observo onde as coisas foram parar. E eu sinto nojo de mim. E ao mesmo tempo orgulho. É claro, de ferro... Frio e calculista, bem como deveria ser. Eu ainda sinto tanta falta, faz tanto frio dentro da minha mente. Eu ando fazendo tudo direito, mas ao mesmo tempo tudo está tão errado... Eu costumava servir tão bem, era tão bom amar e ser amado de volta. Não que as coisas voltem do ponto que pararam. A questão é que esse recomeço está errado, eu sinto isso. Ao menos eu não sofro mais, foram 7 LONGOS LONGOS LONGOS meses trancado aqui nesse lugar. Nesse quadrado, nessa cidade pequena e ruim. 7 Meses preso dentro da minha mente. Preso com as minhas memórias e a minha culpa. Eu era doente antes, mas se isso que sou agora é a cura, eu não consigo dizer qual é o pior. Agora eu saio, eu entretenho as pessoas... Sim, eu aprendi todas as lições de convívio e entretenimento alheio de estranhos. Mas a verdade é que eu só me engano. Eu minto para mim mesmo, todo o tempo. Eu minto dizendo que não sinto, só porque enterrei tudo. Precisei enterrar, ser frio, fingir que esqueci. Eu não conseguiria sem fazer isso. Essas pessoas riem comigo, com as bobagens propositais para o entretenimento delas. Mas sentiriam medo de mim, se soubessem de toda a verdade. Esse lance de ser jovem e ter vida... deus, a minha própria progenitora idosa e sábia confessou que eu aparento nunca estar feliz com nada. Nunca sentir nada. A questão é que a dor é grande demais. Eu não aguentaria passar por isso sozinho. E agora eu estou sozinho. Sim, todos os que eu amo não estão mais por perto. Não é culpa deles, eu me afastei. Eu não quero envolver ninguém nisso... Eu sinto vergonha, tenho medo que me vejam assim. Prefiro que mantenham uma boa memória de tudo aquilo o que já fui. Mas não o que sou agora. Essas pessoas novas, elas não me conhecem. Não fazem idéia de quem eu sou. De tudo o que aconteceu. Eu costumava amar os meus aniversários, o meu último foi inesquecível. Mas esse tem sido o pior de todos, eu nunca fui uma pessoa tão vazia quanto eu sou hoje. Eu sinto tanta falta de tudo o que eu já tive. Não, eu não consigo esquecer. Eu superei sim, mas eu nunca esqueci. Eu só sou uma sombra de tudo o que eu já fui. Tem vezes que eu me olho no espelho e nem sei quem eu sou mais. Talvez seja só um conjunto de tudo, só que com muita dor, rancor e protecionismo excessivos. Se eu pudesse realmente pedir algum presente de aniversário hoje, seria que algum milagre, alguma coisa boa de verdade acontecesse de verdade. Algo bom o bastante que me fizesse sorrir de verdade. Que trouxesse de volta esse meu pedaço, talvez o meu melhor pedaço. Alguém que segurasse a minha mão e dissesse: ''Vem... Você parece tão sofrido, eu vejo nos seus olhos. Você é uma boa pessoa, você quer que eu te ajude a fazer com que você volte a ver o mundo com olhos esperançosos?'' Mas é lógico que isso nunca vai acontecer. Isso é só uma idéia retardada e inferior, talvez isso seja o que tenha sobrado do sonhador que eu costumava ter dentro de mim. Eu não costumo escrever assim, eu só escrevi porque eu sei que provavelmente ninguém nunca leia isso. Mas eu acho que eu tinha que ser honesto de verdade alguma hora. Ao menos expor isso, nem que fosse para mim mesmo. Só dezenove, só dezenove...
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