E ao olhar nos olhos do monstro, o menino sentiu medo. Uma inexplicável sensação de que deveria sumir logo dali. Sentiu calafrios percorrendo todas as extremidades do seu corpo, sentindo uma enorme sensação de peso em seu estômago. Tentou encontrar uma fonte de luz dentro da caverna, o fim da caverna, ou ao menos o ponto de onde ela começava. No meio do desespero, enquanto corria o máximo que suas raquíticas pernas o permitiam, se perguntou como havia parado em um lugar como aquele. Não se lembrava de ter entrado naquela caverna, mas ela realmente não estava sendo como um lindo passeio no parque. Como poderia se enfiar em um lugar tão escuro e assustador sem nem ao menos se dar conta? E como aquela coisa que o perseguia estranhamente silenciosa parecia até... Familiar? O menino limpou as questões de sua cabeça, corria na escuridão, tentando mudar as direções e despistar a coisa. Toda vez que o monstro se aproximava do menino, lembranças vinham a sua mente. Era quase como se o monstro estivesse escolhendo cuidadosamente cada memória morta de dentro da mente do garoto, e ressucitando-as de tal maneira que chegava a doer. A caverna parecia não ter fim, paredes, entrada ou saída. Era um lugar com suas peculiaridades, com cheiros e sentimentos se manifestando quase físicamente dentro da cabeça do garoto. O monstro continha todos eles, mas de uma maneira desconexa e caótica. Só existia o silêncio naquela escuridão perpétua, irritante e violento. Ensurdecedor, assassino de qualquer sanidade ali já vista. O menino estava cansado agora, já não tinha fôlego para continuar por muito mais tempo. Seu ritmo ia diminuindo gradualmente, e podia sentir o monstro cada vez mais perto. Um simples erro de um segundo, e todo o seu esforço ia por água abaixo. Tropeçou, perdeu o equilíbrio e caiu. O monstro pulou para cima do menino, em um movimento único e brusco, violento, porém sem som.
- Do que você tem medo, garoto?
- Dos seus olhos! Eles são vazios, e eu tenho medo de me perder dentro deles!
- Não tema, meu pequeno... Não tema. Se você chegou até aqui, isso tudo deve ter um propósito. Esse lugar pode ser bom, se você quiser que assim seja.
- Como um lugar tão assustador pode ser bom? Não tem vida aqui, não tem luz... Só os cheiros e a escuridão! Eu quero sair, agora!
- Você não pode... Você criou esse lugar, você pertence a ele. Eu só sou... Você, e você é eu. Juntos somos um só. Um inteiro dividido. Eu entendo você, e posso fazer tudo passar. Qualquer coisa que você desejar, pode aparecer por aqui. Todos os doces, brinquedos e amigos imaginários.
- Mas então, como isso foi ficar desse jeito? Tão escuro... Eu tenho medo disso.
- Tudo o que acontece por aqui é materializado por você. Você sabe todas as respostas. Você me criou também, criou esse lugar... Agora cabe a você, aceitá-lo ou modificá-lo.
- Então... Esse lugar é assim por... Eu sei as respostas. Isso é real?
- Só se você quiser.
- Não vai durar muito, vai?
- Só mais um pouco.
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